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Mercado corre para zerar posições e faz disparar dólar e juros

SÃO PAULO  –  A quinta-feira nos mercados de câmbio e juros do Brasil é típica de momentos de pânico, e nas mesas de operações predomina um clima de incerteza até mesmo para o curtíssimo prazo. 

O mercado não precificava tamanha crise política no país e, diante de uma reversão do cenário doméstico, os agentes financeiros buscam zerar suas posições no câmbio. O resultado das operações se reflete na forte alta do dólar, que pairou em torno de R$ 3,40 nos maiores níveis do dia. O Banco Central até tentou aliviar o nervosismo do mercado ao oferecer ‘hedge” (proteção) na forma de novos contratos de swap cambial tradicional. No entanto, a sangria dos ativos domésticos deve perdurar até que haja mais clareza na política.

No mercado de juros futuros, os baixíssimos volumes nas operações da BM&F, em meio a um mercado intermitente por uma série de leilões, deixam claro que o investidor não tem encontrado saída de posições, o que explica as violentas oscilações de preços.

De acordo com o jornal “O Globo”, Temer teria dado aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, em conversa gravada por Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS. As acusações foram divulgadas num momento que o governo vinha trabalhando para colocar em votação a reforma da Previdência na Câmara. Agora, entretanto, esse pilar do ajuste fiscal e um dos principais norteadores do mercado é refém da crise política.

A chance de o peemedebista deixar o Planalto já é tratada como probabilidade majoritária nos mercados, o que deve levar o Brasil a um quadro de incerteza política e de maior aversão a risco como o verificado em 2015, afirma estrategista da XP Investimentos em Nova York, Daniel Cunha. 

Câmbio

Operadores relatam a disparada na diferença de valores entre ofertas de compra e venda de dólar, que chegaram a se aproximar de 10 pontos — o comum é algo mais perto de 2 pontos. Na BM&F, o cupom cambial — medida do juro em dólar no país — salta quase 100 pontos-base, para 2,3% ao ano, ante 1,45% do fechamento de ontem, num indicativo de que o custo do dólar no mercado local está muito mais alto.

Por volta das 12h45, o dólar comercial operava em alta de 8,33%, a R$ 3,3920. Na máxima, o dólar avançou 8,85%, deixando para trás as altas até mesmo dos picos de nervosismos da crise de 2008. A variação desta quinta-feira é a maior desde 31 de julho de 2002, quando a moeda chegou a subir 9,39%. Naquela época, o quadro político também era o responsável pela incerteza do mercado, meses antes da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência.

O Banco Central, por outro lado, já anunciou dois leilões de swap cambial tradicional. No segundo, ofertou os 15.325 contratos que não foram colocados no primeiro, com lote de 40 mil. Com o dólar mantendo-se próximo de R$ 3,40, porém, a expectativa é que o BC entre com mais leilões ainda hoje.

Juros

No mercado secundário de títulos públicos, a corrida é para se desfazer dos papéis. As taxas da LTN com vencimento em 2020, por exemplo, disparam cerca de 200 pontos, saindo de 9,54% do fechamento anterior para 11,30% hoje. 

Entre analistas, as avaliações são de que os preços parecem indicar um cenário de saída de Michel Temer do governo. Para as próximas semanas, porém, o cenário ainda é difícil de ser traçado, especialmente porque deverá haver uma série de definições — a mais importante delas agora é quem poderia ser o novo presidente após o Rodrigo Maia, presidente da Câmara, assumir temporariamente o posto.

“Em um primeiro momento o Brasil é jogado de volta a 2015, em que o governo tem pouca legitimidade e está vulnerável, podendo perder o apoio no Congresso e com dificuldade de reger o país”, afirma Daniel Cunha, estrategista da XP Investimentos em Nova York.

“A questão é, num cenário mais extremo, de impeachment, saber quem terá força para tocar a agenda de reformas, agora em xeque”, diz Arnaldo Curvello, gestor da Ativa Wealth Management.

As dúvidas se estendem para a política monetária. Na avaliação do sócio-gestor da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, a possibilidade de o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central intensificar o ritmo de corte da taxa básica de juros é quase inexistente agora.

“O cenário para política monetária fica obscuro. Até tem espaço para cair juros agora, por causa da inflação e a atividade econômica, mas fica claro que a reforma da Previdência não vai passar”, diz o especialista. Petrassi aponta que o BC pode fazer um corte de 1 ponto da Selic em maio e indicar uma pausa para avaliar o cenário. “O cenário está comprometido”, acrescenta.

Por volta das 13h, o DI janeiro de 2018 subia a 10,075%, ante 8,975% no ajuste anterior, e o DI janeiro de 2019 avançava a 10,410%, ante 8,810% na mesma base de comparação. O DI janeiro de 2021, por sua vez, marcava 11,390%, ante 9,590%.

Por ora, o Tesouro Nacional cancelou a oferta de LTN e LFT que faria nesta quinta-feira, mas ainda não há anúncio de operações de recompra de papéis, o que serviria como escape ao mercado. Mais cedo, a instituição disse que “permanece monitorando os impactos decorrentes dos fatos políticos mais recentes”. No comunicado, apontou que “adotará as medidas necessárias para assegurar a plena funcionalidade e a adequada liquidez dos mercados”.

Fonte: Valor Econômico

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