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Análise: CPI dos EUA perto da meta justifica nova alta de juro do Fed?

SÃO PAULO  –  A alta do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) nos Estados Unidos em agosto, para uma variação anual de 1,9%, ou de 1,7% considerado o núcleo, automaticamente suscita especulações de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) já tem a munição que faltava para disparar nova sequência de alta dos juros, hoje entre 1,0% e 1,25%.

Os preços dos Fed Funds futuros precificam isso: a probabilidade implícita de aperto monetário em dezembro subiu a 53% na quinta-feira, ante 31% uma semana atrás.

Mas será que o comportamento do CPI no mês passado justifica tranquilidade para o BC americano apertar mais a política monetária?

Durante todos os meses desde dezembro de 2015, quando o Fed fez sua primeira elevação dos juros desde a eclosão da crise, a inflação reagiu muito pouco enquanto a taxa de desemprego caiu à metade. A relação inversa histórica entre os dois indicadores, descrita pela curva de Phillips, tem sido, como resultado, questionada.

Segundo esse modelo amplamente usado pelos bancos centrais, quando a taxa de desemprego está acima de seu equilíbrio natural, a inflação recua. Inversamente, quando está abaixo, há pressões de preços.

O Fed, quando assumiu uma meta de inflação de 2,0%, definiu este nível como uma tendência de longo prazo. Logo, os preços variariam em torno desse percentual ao longo do ciclo econômico. A questão que se apresenta é que este cenário não está acontecendo nos últimos anos.

Após a crise, muito se falou a respeito do “novo normal” para a política monetária, no qual as taxas neutras de juros seriam mais baixas do que se supunha. Mas a inflação também mostra uma tendência de manter-se contida, abaixo do objetivo, a despeito da ampla liquidez nos mercados e dos estímulos que reduziram amplamente as pressões de preços e salários. O tema é vasto e sem conclusões definitivas.

O Fed usa como parâmetro não o CPI mas o PCE (Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal). Desde abril, tanto o índice cheio como seu núcleo (excluindo alimentos e energia) traçam uma trajetória cadente, ambos em 1,4% em agosto. No mesmo mês de 2016, o PCE subia o mesmo 1,4%. Já o núcleo, está 0,4 ponto percentual abaixo. No mesmo período, a taxa de desemprego caiu para 4,4%, de 5,0%.

Segundo estudiosos como Lael Brainard, membro do “board” do Fed, fatores transitórios que afetam os preços têm “pouca implicação para a tendência subjacente da inflação”. Em apresentação na semana passada no Clube Econômico de Nova York, Brainard disse que, na verdade, “o que é preocupante são cinco anos consecutivos em que a inflação ficou aquém da meta, apesar de uma melhora acentuada na utilização de recursos”.

Embora fatores como o declínio nos preços de importação, refletindo o aumento do dólar, tenham colaborado para a tendência baixista da inflação (especialmente em 2015), sua recuperação (com a queda do dólar) não desencadeou reação dos índices. Brainard então diz que “uma variedade de medidas sugerem que a inflação tendencial subjacente pode ser atualmente menor do que era antes da crise, contribuindo para o déficit contínuo da inflação em relação ao alvo”.

Diante desse cenário, como o Fed pode reagir? 

Brainard diz que historicamente seria apropriado elevar os juros “preventivamente” já que a que a política monetária opera com longas defasagens e a inflação inevitavelmente acelerará à medida que o mercado de trabalho continuar a apertar. “No entanto, na economia de hoje, há razões para se preocupar que a curva de Phillips não seja muito confiável para aumentar a inflação.”

Sendo assim, o Fed poderia, em tese, “aceitar” que a inflação tendencial é mais baixa (talvez até reduzindo a meta) e elevar muito marginalmente as taxas de juros nos próximos anos, junto com a redução de seu balanço. O problema que pode acontecer, contudo, é a possibilidade de desequilíbrios financeiros decorrentes da alta de preços de ativos, como imóveis comerciais e ações, pontua Brainard, além da baixa volatilidade. O lado bom, por enquanto, é que existem poucos sinais de um acúmulo perigoso de alavancagem.

Fonte: Valor Econômico

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