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Quais as barreiras para inclusão de negros no mercado financeiro?

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“Não se aceitam pessoas de cor”. Essa frase era bastante comum em anúncios de emprego até 1950, como descreve Abdias do Nascimento em seu livro “O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado”. A frase, no entanto, deixou de ser usada no ano seguinte, quando a Lei Afonso Arinos foi aprovada para combater o racismo no país.

Mas, como observou Abdias em seu livro, mesmo com a Lei aprovada, “tudo continuou na mesma”, já que os patrões passaram a buscar pessoas de “boa aparência”.

Passaram-se anos desde que o livro de Abdias, uma das vozes mais importantes pelos direitos dos afrodescendentes no Brasil, foi publicado. De lá para cá, muitas empresas adotaram processos seletivos voltados para negros, outras começaram a aderir aos programas de diversidade.

O próprio país, inclusive, estabeleceu uma política pública e consolidou as cotas raciais em 2012 com a Lei nº 12.711. Mesmo assim, as barreiras da discriminação continuam e a inclusão de negros no mercado financeiro é desigual.

Cofundadora da Nubank diz ser “difícil” contratar líderes negros

Recentemente, a fala da cofundadora da Nubank, Cristina Junqueira, teve uma repercussão negativa. Em entrevista ao Roda Viva, programa da TV Cultura, ela disse ser “difícil contratar líderes negros, devido a alta exigência para esses cargos do banco”.

Questionada sobre a contratação de minorias, ela ainda completou dizendo que “não poderia nivelar por baixo e que esses profissionais não conseguiriam trabalhar com os outros times da empresa”. Após receber críticas sobre a fala, a empresária publicou um vídeo pedindo desculpas.

“Queria pedir desculpas, [porque] acho que não me expressei da melhor maneira. É super importante a gente ter uma comunicação clara. Queria agradecer todo o feedback que está vindo, a repercussão que isso está tendo porque todo mundo tem o que aprender”, disse.

Após a polêmica envolvendo a fintech e a cofundadora, a Nubank lançou um programa de inclusão racial e diversidade.

No entanto, esse episódio acende uma questão: por que há tanta dificuldade em inserir negros no mercado financeiro?

Como 54% da população no Brasil é negra, a falta de pessoas não é uma justificativa. E projetos geridos por pessoas negras para pessoas negras vêm ganhando espaço no mercado financeiro. Conheça alguns deles.

Negros no mercado financeiro: conheça o Movimento Black Money

O racismo estrutural foi o que levou à criação do Movimento Black Money, mais conhecido como MBN. O projeto foi criado em 2017 e traz para a população negra soluções como maquininha de pagamento (a pretinha), marketplace e o banco digital, chamado de D’ Black Bank.

O objetivo principal do MBN é incluir os negros que não são atendidos pelos bancos tradicionais de forma adequada.

Durante a pandemia, o Movimento Black Money criou o programa “Impactando Vidas Negras”, o qual cedeu uma espécie de auxílio emergencial para a população.

negros no mercado financeiro
Movimento para inclusão de negros no mercado financeiro está em crescimento

O programa conseguiu financiamento de R$500 mil da B3 e de R$200 mil através de crowdfunding.

Conheça sobre o projeto acessando o site do MBM.

Educação Financeira é o pilar de projetos financeiros voltados para negros

Banco Afro é outra iniciativa de instituição financeira para negros. Para o fundador, Diego Reis, o ponto mais importante é o impacto gerado.

A instituição financeira surgiu de um coletivo chamado Grupo Afro Empreendedor e evoluiu após chegar a 20 mil empreendedores em todo o Brasil. Em 2019, o banco entrou em operação, visando oferecer contas digitais, meio de pagamento e microcrédito.

A operação da empresa se baseia em quatro pilares:

  • educação financeira;
  • bancarização das classes C, D e E;
  • distribuição de renda;
  • fortalecimento do black money.

Conheça mais sobre o Banco Afro no site.

Além disso, outra instituição de pagamentos é o Afrobank, que quer ensinar ao seu público como gastar de maneira consciente.

Uma pesquisa realizada pela Central Única das Favelas (CUFA) mostrou que, durante a pandemia, 49% dos negros deixaram de pagar alguma conta.

A iniciativa do Afrobank busca ainda a autorização para atuar como instituição financeira, mas já tem uma base de clientes: são 7 mil nomes listados para abertura de contas.

Conheça mais sobre a iniciativa no site do Afrobank.

Como conseguir diminuir a desigualdade de negros no mercado financeiro?

O fim da desigualdade racial no Brasil ainda está longe de se tornar uma realidade. Mas o caminho para mudar esse quadro e democratizar o acesso da população negra ao mercado financeiro é, além de oferecer oportunidades, entender que o racismo impacta na organização econômica.

Silvio de Almeida, professor da Mackenzie e da FGV de São Paulo, exemplificou isso dizendo que “sem levar em conta como raça e gênero estruturam a sociedade, combinadas a questão de classe, é impossível fazer um diagnóstico econômico e político da desigualdade”.

Além disso, ele também pontuou que “(…) o racismo é normalizado pelo próprio funcionamento das instituições”.

A atriz, produtora e ativista americana, Viola Davis, também falou sobre a importância da criação de oportunidades no evento Cidadão Global deste ano:

“Se não há oportunidades, você é invisível. Não importa o quanto você trabalha, o quanto você é talentoso. Todas as pessoas com grandes potenciais vão para o túmulo. Se não criamos espaço para todos trazerem seu potencial interior, ideias, talentos e inteligência, não vamos saber que as pessoas existem. Uma pessoa que ganhou cinco Oscars teve os papéis que tornaram isso possível. Sem eles, estaria apenas nadando no oceano”, disse.

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Camila Miranda
Nascida na Zona Oeste do Rio, me divido entre jornalismo e marketing digital. Com três anos de experiência em Comunicação, já trabalhei em redação de jornal impresso, webjornalismo e assessoria de imprensa. Hoje, faço gestão de mídias sociais e produção de conteúdo. Amo assuntos sobre as áreas cultural e política. Reclamo do transporte público.

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