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    InícioCarol VelosoPassagens em promoção - o papel das emoções nas decisões com dinheiro

    Passagens em promoção – o papel das emoções nas decisões com dinheiro

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    (7)

    Acabei de retornar de férias da linda Paraíba. Confesso que me surpreendi com as belezas naturais do lugar e com a pechincha que era comer tão bem frutos do mar e coco gelado (os preços no Rio de Janeiro estão a hora da morte).

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    Aliás, já que estamos entre amigos, também tenho outra confissão a fazer: não planejei essa viagem. Na verdade eu estava tão exausta com a nova vida de dois filhos pequenos, o retorno da licença maternidade e entregas no trabalho que só queria que alguém decidisse por mim.

    Esse encargo ficou para minhas duas irmãs que decidiram as passagens, os hotéis e os passeios. Eu só mandava no grupo da família de WhatsApp: “me manda a conta que eu faço um pix!”.

    Pode parecer uma hipocrisia ou um crime um educador financeiro bradar que não se planejou para uma viagem. Mas eu apenas simplifiquei a forma de me organizar para esse tipo de gasto.

    Se esta coluna estivesse sendo escrita em 2018 (quando eu tinha apenas um filho, o marido desempregado e um emprego) esse texto teria sido diferente.

    Eu teria dito quantos sites eu pesquisei, quantas milhas eu vendi, quanta renda extra fiz vendendo roupas usadas e o quanto poupei para aquela meta.

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    Mas meu contexto de vida mudou. Meu marido está empregado, a reserva de emergência está montada, os investimentos para aposentadoria em piloto automático. Hoje tenho que lidar com uma pesada rotina de dois filhos, um emprego e o neuroeconomia.

    Então, infelizmente, programar em detalhes as férias da família não entrou na lista de prioridades para ninguém aqui em casa.

    Regra simples – uma conta digital pra viagem

    Como não confio no meu cérebro (afinal ele cede à contabilidade mental e arruma justificativas racionais para atos emocionais) eu criei um mecanismo de proteção: uma conta digital onde o dinheiro que tem ali é destinado para as férias.

    Alimento essa conta com um valor fixo mensal.

    Então quando me chamaram para viagem eu fiz uma conta pessimista e a única coisa que fiz foi checar o saldo da conta férias e fazer duas perguntas:

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    1) Tem saldo? Sim.

    2) Se eu usar nesta viagem o valor estimado de forma pessimista, quanto sobra para as férias do segundo semestre? O suficiente para fazer pelo menos outra pequena viagem sem precisar poupar mais.

    Com essas respostas estava confortável para decidir sobre a viagem decidida em cima da hora. Pude me dar o luxo de comprar tempo e não pesquisar nada.

    Eu simplifiquei minha tomada de decisão de acordo com as prioridades da minha vida atual.

    avião no ar rumo às férias
    Planejamento financeiro é importante na hora de realizar viagens

    Mas a simplificação é fruto de: mudança de contexto, domínio dos próprios números (já anotei por muitos meses todos os meus gastos para entender meu padrão de consumo), excedente de receita (usar a regra de viver alguns degraus abaixo do que eu ganho – cuja possibilidade não deixa de ser um privilégio no Brasil).

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    Estava muito orgulhosa desse mecanismo simplificador de decisão, desenhado para ser imune às pegadinhas do cérebro, até que recebi mensagens no grupo da família esta semana.

    “Passagens em promoção!”.

    Minha irmã começou a dizer que ia comprar as passagens, que estava muito barato (era para ir pra Disney), que era uma oportunidade única, que ela sempre perdia essas oportunidades (“mas dessa vez não!”), que seria lindo todas as crianças viajando juntas e outros devaneios.

    Ela até mesmo fez uma conta em exatos cinco minutos de quanto custaria a viagem ao todo pra cada pessoa (o que obviamente está longe do que de fato gastaríamos) para nos convencer daquela oportunidade.

    Mesmo sabendo que cada frase que saía da boca dela era fruto do frenesi “PROMOÇÃO”: comecei a sofrer de FOMO (ou medo de ficar de fora). Comecei a imaginar a alegria do meu filho e fui tomada pela ansiedade do “preciso decidir AGORA” porque a oportunidade vai passar.

    Cheguei a ligar para o meu marido para coloca-lo contra a parede. A sorte é que a internet estava ruim e não consegui falar com ele. Esses cinco minutos foram suficientes para passar o frenesi.

    Cuidado com a pressão social

    Botei um cropped e reagi: se eu tomar uma decisão com pressa não será uma boa decisão!

    Primeiro porque estamos sob o efeito da aversão à perda pelo fato de existir essa promoção imperdível (que vamos combinar, acontece a cada dois meses).

    Afinal, o que estava me motivando era viajar para aquele destino ou ceder à pressão de não perder uma oportunidade?

    Segundo, eu estava cedendo ao efeito manada: aquela euforia de seguir o fluxo, o que é mais confortável do que decidir por si só e de acordo com seus dados e interesses.

    Lembrei que tinha outra viagem em mente, que talvez seja um pouco mais cara, mas que é a viagem que eu realmente gostaria de fazer e que tem significado pra mim.

    É difícil dominar os sentimentos.

    Por isso, tenha regras simples que te guiem para tomar decisões em momentos de forte emoção e construa hábitos financeiros saudáveis, pois é a única forma de tornar decisões automáticas favoráveis.

    *minhas opiniões não representam as opiniões da CVM

    Conheça Carol Velloso, colunista do FinanceOne

    Com experiência em finanças comportamentais, Carol Velloso é a nova colunista do FinanceOne. Ela terá textos publicados a cada 15 dias. Fique de olho!

    Carol é advogada com experiência em propriedade intelectual e políticas públicas, incluindo de educação financeira.

    Depois de se tornar mãe, ela passou a organizar a vida financeira da família e, desde de 2019, produz conteúdo sobre finanças comportamentais no perfil @neuro.economia, pois para ela a raiz dos problemas financeiros está no cérebro.

    Confira outros textos de Carol Velloso, colunista do FinanceOne:

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    Carol Velloso
    Carol Velloso
    Carol é advogada com experiência em propriedade intelectual e políticas públicas, incluindo de educação financeira. Depois de se tornar mãe, ela passou a organizar a vida financeira da família e a produzir conteúdo de finanças comportamentais, pois pra ela a raiz dos problemas financeiros está no cérebro. Carol é formada em Direito pela UFRJ, pós graduada em propriedade intelectual pela PUC-RJ e cursou Behavioral Finance na University of Chicago.

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    Aliás, já que estamos entre amigos, também tenho outra confissão a fazer: não planejei essa viagem. Na verdade eu estava tão exausta com a nova vida de dois filhos pequenos, o retorno da licença maternidade e entregas no trabalho que só queria que alguém decidisse por mim.

    Esse encargo ficou para minhas duas irmãs que decidiram as passagens, os hotéis e os passeios. Eu só mandava no grupo da família de WhatsApp: “me manda a conta que eu faço um pix!”.

    Pode parecer uma hipocrisia ou um crime um educador financeiro bradar que não se planejou para uma viagem. Mas eu apenas simplifiquei a forma de me organizar para esse tipo de gasto.

    Se esta coluna estivesse sendo escrita em 2018 (quando eu tinha apenas um filho, o marido desempregado e um emprego) esse texto teria sido diferente.

    Eu teria dito quantos sites eu pesquisei, quantas milhas eu vendi, quanta renda extra fiz vendendo roupas usadas e o quanto poupei para aquela meta.

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    Mas meu contexto de vida mudou. Meu marido está empregado, a reserva de emergência está montada, os investimentos para aposentadoria em piloto automático. Hoje tenho que lidar com uma pesada rotina de dois filhos, um emprego e o neuroeconomia.

    Então, infelizmente, programar em detalhes as férias da família não entrou na lista de prioridades para ninguém aqui em casa.

    Regra simples – uma conta digital pra viagem

    Como não confio no meu cérebro (afinal ele cede à contabilidade mental e arruma justificativas racionais para atos emocionais) eu criei um mecanismo de proteção: uma conta digital onde o dinheiro que tem ali é destinado para as férias.

    Alimento essa conta com um valor fixo mensal.

    Então quando me chamaram para viagem eu fiz uma conta pessimista e a única coisa que fiz foi checar o saldo da conta férias e fazer duas perguntas:

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    1) Tem saldo? Sim.

    2) Se eu usar nesta viagem o valor estimado de forma pessimista, quanto sobra para as férias do segundo semestre? O suficiente para fazer pelo menos outra pequena viagem sem precisar poupar mais.

    Com essas respostas estava confortável para decidir sobre a viagem decidida em cima da hora. Pude me dar o luxo de comprar tempo e não pesquisar nada.

    Eu simplifiquei minha tomada de decisão de acordo com as prioridades da minha vida atual.

    avião no ar rumo às férias
    Planejamento financeiro é importante na hora de realizar viagens

    Mas a simplificação é fruto de: mudança de contexto, domínio dos próprios números (já anotei por muitos meses todos os meus gastos para entender meu padrão de consumo), excedente de receita (usar a regra de viver alguns degraus abaixo do que eu ganho – cuja possibilidade não deixa de ser um privilégio no Brasil).

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    “Passagens em promoção!”.

    Minha irmã começou a dizer que ia comprar as passagens, que estava muito barato (era para ir pra Disney), que era uma oportunidade única, que ela sempre perdia essas oportunidades (“mas dessa vez não!”), que seria lindo todas as crianças viajando juntas e outros devaneios.

    Ela até mesmo fez uma conta em exatos cinco minutos de quanto custaria a viagem ao todo pra cada pessoa (o que obviamente está longe do que de fato gastaríamos) para nos convencer daquela oportunidade.

    Mesmo sabendo que cada frase que saía da boca dela era fruto do frenesi “PROMOÇÃO”: comecei a sofrer de FOMO (ou medo de ficar de fora). Comecei a imaginar a alegria do meu filho e fui tomada pela ansiedade do “preciso decidir AGORA” porque a oportunidade vai passar.

    Cheguei a ligar para o meu marido para coloca-lo contra a parede. A sorte é que a internet estava ruim e não consegui falar com ele. Esses cinco minutos foram suficientes para passar o frenesi.

    Cuidado com a pressão social

    Botei um cropped e reagi: se eu tomar uma decisão com pressa não será uma boa decisão!

    Primeiro porque estamos sob o efeito da aversão à perda pelo fato de existir essa promoção imperdível (que vamos combinar, acontece a cada dois meses).

    Afinal, o que estava me motivando era viajar para aquele destino ou ceder à pressão de não perder uma oportunidade?

    Segundo, eu estava cedendo ao efeito manada: aquela euforia de seguir o fluxo, o que é mais confortável do que decidir por si só e de acordo com seus dados e interesses.

    Lembrei que tinha outra viagem em mente, que talvez seja um pouco mais cara, mas que é a viagem que eu realmente gostaria de fazer e que tem significado pra mim.

    É difícil dominar os sentimentos.

    Por isso, tenha regras simples que te guiem para tomar decisões em momentos de forte emoção e construa hábitos financeiros saudáveis, pois é a única forma de tornar decisões automáticas favoráveis.

    *minhas opiniões não representam as opiniões da CVM

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    Com experiência em finanças comportamentais, Carol Velloso é a nova colunista do FinanceOne. Ela terá textos publicados a cada 15 dias. Fique de olho!

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    Depois de se tornar mãe, ela passou a organizar a vida financeira da família e, desde de 2019, produz conteúdo sobre finanças comportamentais no perfil @neuro.economia, pois para ela a raiz dos problemas financeiros está no cérebro.

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